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"Da independência política à independência moral"
Às 19 horas, realizou-se no Teatro Santa Roza a anunciada conferência do Dr. José Américo de Almeida sob o título: Da independência política à independência moral. Numerosa e seleta assistência ocupava o vasto recinto. O Monsenhor Pedro Anísio, assistente eclesiástico da UMC (União dos Moços Católicos), explicou em ligeiro discurso o fim da solenidade e deu a palavra ao conferencista, cujo talento e cuja cultura focalizou.
Começou o Dr. José Américo de Almeida afirmando que a tribuna dos moços católicos era uma tribuna voltada para o futuro, dela visionando-se o “élan” daquela juventude, a esplêndida diretriz de sua ação social pelo tempo em fora.
Entrando no assunto, focalizou o papel dos grandes vultos históricos, propugnadores de nossa independência política, assegurando, porém, ter sido o Grito do Ipiranga o eco da aspiração anônima, do nativismo, a pressão irresistível da ideia que crepitava, a conquista de uma raça nova.
“Fazendo, contudo, a independência, cita o conferencista um jovem pensador, não souberam os brasileiros erguer dentro de nossa comunhão, na generosidade e no esplendor da beleza e da força, a civilização latino-americana gerada de nossa carne e fruto do nosso sangue.
Formamos, conclui, foi uma civilização de enxertia, de arremedos, em vez de um tipo de brasilidade.”
Estende-se o conferencista largamente sobre este espírito de imitação às vezes servil do brasileiro, nos múltiplos setores da vida nacional, comprometendo-lhe ou mesmo anulando-lhe a independência política, social, econômica, literária, etc.
“Nada de moldar as instituições à feição da terra. Tudo viera transplantado de outros povos: regime político, parlamentos, constituições, códigos, literatura…”
A nossa inteligência, pelo menos, deveria ser independente, em atenção ao lugar comum de que o pensamento é livre, diz o conferencista. Mas, pelo contrário, a nossa literatura foi clássica com a Grécia morta, numa natureza tão viva; foi de um romantismo chorão, vindo através da Alemanha e da Inglaterra, numa natureza tão festiva; foi naturalista cultivando o desmancho conjugal do romance parisiense e as cruzes zoleicas dos prostíbulos cosmopolitas. Foi parnasiana, asfixiando o nosso lirismo tropical com o sapato chinês de Herédia, Sully Proudhome e Leconte de Lisle; foi simbolista como um choro de mudo neste país de papagaios; e quer ser futurista no meio que ainda não tem passado.
Só não soube ser brasileira com um sopro de vida de nossas matas virgens, a impregnação de nossa terra moça, os nossos mares, as nossas serras, os nossos bandeirantes, os nossos jangadeiros…
E quando quis sê-lo, descambou para um realismo caricatural, um caipirismo impatriótico, que deformava a nossa raça e a nossa língua com os modismos idiotas e os jecas de hospital.
Desdenhou os modelos de José Alencar, Afonso Arinos e Euclides da Cunha, para refazer a nossa intelectualidade num sentido autônomo e afirmativo.
Desdenhamos, porém, esses elementos de vida própria deixando escoarem-se as nossas energias nos desequilíbrios da balança comercial.
Deixamos a política da Metrópole pela política dos empréstimos externos. Depois que Portugal nos levou todo o ouro, quisemos recambiar o ouro do mundo inteiro.
E vieram as humilhações do funding.
Na política, a crise da falta de independência fulmina a própria essência da democracia com a burla das eleições, a mistificação do sufrágio universal, a permuta de invasões dos poderes…
E a República, longe de procurar solução para esses problemas tão graves, acobertou todas essas misérias, com elas se conformou, agravou-as instituindo o abissinismo, o prêmio aos trânsfugas com o favoritismo e as preterições…
O remédio para essas mazelas, não seria a reforma das legislações sem a reforma das consciências. A emenda do sistema de governo sem a emenda dos homens.
Seria a Revolução? É natural que se aplique a força bruta contra a força inconsciente. Mas o revolucionarismo periódico é impotente perante o aparelho de repressão conservadora. Naufraga nas ondas do sangue fratricida.
Não reneguemos os heróis abnegados, as assombrosas sortidas dos últimos assomos de reivindicações. São os chamados aventureiros que aventuram ― o quê? ― a própria vida em sua obsessão patriótica.
Mas esses processos extremos consomem o nosso escasso contingente humano e resultariam uma obra amassada no sangue fraterno. É o velho sistema de curar por sangrias.
Formemos outra consciência cívica, animemos a nacionalidade de outro espírito de interesse comum. Plasmemos uma mentalidade de virtudes republicanas.
Constituamos mais sólidos fundamentos de moralidade social.
Disciplinemos as ideias revolucionárias no sentido mais humano.
É claro que esta obra de restauração social não seria a conquista de um momento, mas o trabalho persistente de muitos capazes de se sacrificarem por esse idealismo construtor.
Moços católicos ― lembrai aos corações transviados que o Brasil verdadeiro, sem mescla, nosso Brasil verdadeiro, é a terra de Santa Cruz.
Sob esses auspícios ele será maior do que o seu imenso território, porque crescerá para cima, se expandirá em grandeza moral até às bênçãos de Deus.
* O Dr. José Américo de Almeida pronunciou a sua conferência de improviso, sem mesmo o recurso de quaisquer notas.
A conferência foi apresentada nos 105 anos de independência do Brasil.
Referência: o excerto da conferência foi extraído da obra do Cônego Francisco Lima: “Dom Adauto - subsídios biográficos (Unipê) II, pág.389-393.


